MASSACRE NA FAIXA DE GAZA: Jornalista narra a morte do pai, vítima de bombardeio aéreo.


Por acaso, Israel, não te lembras das dores sofridas,
Das mortes nos campos de Auschwitz, Treblinka e Dachau?
Esqueceste, oh! Israel, do Gueto de Varsóvia,
Em que agora transformas a faixa de Gaza?

(Alcindo Tenório)

O morticínio na faixa de Gaza, fruto dos ataques do Estado Terrorista de Israel, e que já alcança onze dias seguidos, tem sido mostradoem larga escala na imprensa. Bombardeios a alvos civis, aí incluída uma Universidade e o saldo de setecentos mortos e três mil feridos, este o resultado da barbárie.
De se fixar, de logo, que ninguém aqui deixa de questionar os intermitentes bombardeios dirigidos ao território de Israel, pelo Hamas. Numa coisa se igualam: Um em escala caseira, artesanal; outro com sustentação sólida e aparelho bélico ultra-avançado. Aforante isso, ambos violam vetustas leis de guerra que condenam bombardeios dirigidos a alvos civis (1). De todo o modo, a reação agora oposta por Israel é absolutamente desproporcional e irresponsavelmente anti-humanitária, isso para ficarmos no jargão diplomático. Insânia esta que ultrapassa todos os limites, a ponto de, como ocorreu, hoje, e pela segunda vez, de bombardearem Escolas da ONU, espaços físicos hoje destinados ao abrigo de refugiados, e devidamente sinalizados para tal uso.
Como disse Saramago, parece que o instinto serve mais aos animais do que a razão aos homens...
A matéria que postamos a seguir, longe de destoar da assombrosa realidade exibida na mídia, carrega uma dolorosa particularidade: Nela o jornalista FARES AKRAM, correspondente do jornal inglês "Independent", reporta a morte do próprio pai, colhido por um ataque aéreo das forças de Israel.
O pai de Akram fora advogado e, depois, juiz da Autoridade Nacional Palestina. Com a ascensão do Hamas ao poder, abandonou o posto e trocou o cargo de magistrado pela vida de agricultor, proprietário de terras. Como conta a reportagem, o pai "...odiava o que o Hamas estava fazendo com o sistema legal de Gaza, introduzindo a justiça islâmica, e era totalmente oposto à violência...". Com a iminência da invasão por terra, ele não acompanhou a família até a cidade e resolveu ficar na propriedade, porque "...não haveria como voltar para cuidar do gado se a invasão terrestre acontecesse".
Vamos ao texto, publicado no jornal Folha de S. Paulo, edição de hoje, com tradução de Paulo Migliacci:

"A PAZ DO SÍTIO FOI DESTRUÍDA, E MEU PAI, DESPEDAÇADO"

Por FARES AKRAM
"Sepultamos meu pai anteontem em um funeral muito rápido,
sabendo que havia tanques a apenas três quilômetros."
O telefonema surgiu às 16h20 do sábado. Uma bomba havia atingido a pequena casa de nossa fazenda no norte da faixa de Gaza. Meu pai estava caminhando do portão para a casa.
Era a fazenda mais próxima à fronteira norte com Israel. Ironicamente, sempre imaginamos que o maior perigo fossem não as tropas israelenses, mas os erros nos foguetes do Hamas disparados contra cidades de Israel logo ao norte de nós.
Mas pouco antes do cair da noite, no sábado, quando tropas terrestres e tanques israelenses invadiram a faixa de Gaza com a missão de pôr fim ao uso de foguetes pelo Hamas, a paz do local foi destruída, e a vida do meu pai, extinta. Aviões e helicópteros de combate haviam varrido a área, lançando bombas para abrir caminho às forças terrestres e tanques que seguiriam adiante assim que a noite caísse. Foi um desses ataques que causou a morte do meu pai.
Como a maioria dos cidadãos de Gaza, minha mãe, minhas irmãs, minha mulher grávida de nove meses e eu passamos a última semana aprisionados em nosso apartamento na cidade. Mas meu pai havia decidido ficar na fazenda; ele sabia que não haveria como voltar para cuidar do gado se a invasão terrestre acontecesse.
A última vez que o vi foi na quinta-feira, quando ele trouxe dinheiro e um saco de farinha. Conversamos sobre o iminente nascimento de meu primeiro filho e sobre como faríamos para levar minha mulher ao hospital em meio ao bombardeio. É claro que na noite de sábado não havia esperança de levar uma ambulância à fazenda, porque as estradas estavam bloqueadas pelos israelenses. Assim, meu tio e meu irmão dirigiram os oito quilômetros até lá e o resto da família ficou no apartamento. No fundo, todos sabíamos que papai estava morto. Quando um F-16 bombardeia sua casa, você sabe as consequências.
Sepultamos meu pai anteontem em um funeral muito rápido, sabendo que havia tanques a apenas três quilômetros. Os israelenses podem alegar que existiam militantes na área de nossa fazenda, mas jamais acreditaremos. O ponto mais avançado para os lançadores de foguetes fica seis quilômetros ao sul. Na fronteira, o terreno é uma planície aberta, sem esconderijos possíveis.
Meu pai não era militante. Nascido em Gaza e educado no Egito, ele era um advogado e juiz que trabalhou para a Autoridade Palestina. Depois que o Hamas tomou o poder, ele abandonou seu posto e se tornou agricultor.
Ele odiava o que o Hamas estava fazendo com o sistema legal de Gaza, introduzindo a justiça islâmica, e era totalmente oposto à violência.
Minha dor não envolve desejo de vingança. Mas, como um filho em luto, vejo dificuldade para distinguir entre aqueles que os israelenses chamam de terroristas e os israelenses que estão invadindo Gaza. Qual é a diferença entre o piloto que despedaçou meu pai e um militante que dispara um pequeno foguete? Só sei que, no momento em que estou por me tornar pai, perdi o meu."

Ilustração: Instantâneo de Gaza.
(1) Veja, a propósito, postagem neste blog a respeito da REVOLUÇÃO DE 1924, cujos bombardeios governistas à cidade de São Paulo resultaram na morte de mais de 500 pessoas

Um comentário:

Henrique d'Arce disse...

E a realidade mais uma vez confirma o que falou o Saramago: o instinto dos animais lhes serve melhor do que nossa racionalidade.