29 de outubro de 2008

"HOMENS INVISÍVEIS: RELATOS DE UMA HUMILHAÇÃO SOCIAL" - Fernando Braga da Costa - UM TRECHO


"HOMENS INVISÍVEIS" (veja capa e detalhes ao lado) foi escrito a partir de pesquisa extremamente peculiar: O Autor foi literalmente a campo e, por nove anos, trabalhou como gari na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo. Com esteio nesta longa e curtida vivência, FERNANDO BRAGA DA COSTA apresenta e desenvolve o fenômeno da invisibilidade pública dos trabalhadores subalternos, cuja presença e existência, ao sentir dos professores e alunos daquele campus, confundia-se como mero item paisagístico. Coisa, e não, ser ("Um poste, uma árvore, uma placa de sinalização de trânsito, um orelhão, uma pessoa em uniforme de gari na atmosfera social: todos parecem valer a mesma coisa").
Leia, adiante, passagens que selecionamos, contidas no 4o . capítulo da obra:

"AINDA NAQUELE DIA, aceitei o convite de um dos trabalhadores para que fôssemos almoçar no bandejão central. No trajeto entre a Escola Politécnica - local em que trabalhávamos - e o restaurante, necessariamente passaríamos em frente ao Instituto de Psicologia. Pedi para entrarmos: queria pegar a carteirinha universitária e o dinheiro para pagar a refeição.
Calça, camisa e boné vermelhos: imaginei que, no Instituto de Psicologia, chamaria a atenção naqueles trajes. Pareceu-me divertido aparecer vestido de gari, ‘fantasiado’. Tinha a expectativa de que aquilo poderia ser engraçado.
Antônio e eu entramos no bloco de aulas. Os alunos estavam em intervalo, fora das salas: pelos corredores internos, no centro acadêmico, na lanchonete. Conhecia aquela gente: amigos de turma, colegas, veteranos companheiros do time de futebol, parceiros do tênis de mesa, os professores. Todos do instituto.
Atravessamos o andar térreo de ponta a ponta. Subimos as escadas. Passamos pelo andar superior. Entrei na biblioteca. Descemos as escadas. Novamente andamos pelo térreo. Passei pelo Centro Acadêmico. Transitamos em frente à lanchonete. Estava atento. Buscava a expressão de alguém surpreso: ‘Que roupas são essas, Fernando?’!
A atenção foi cansando lentamente. Meu olhar foi assumindo função meramente instrumental. Eu precisava, naqueles instantes, era desviar daqueles que não me viam: era para isso que, frustrado, eu precisava agora estar atento.
Já não esperava surpresa alguma dos outros comigo. Deixei de esperar pelas perguntas intrigadas, mas ainda seria capaz de responder a algum cumprimento, alguém que me tomasse por gari ao lado de um outro gari.
Nenhum cumprimento, mesmo que discreto. Os olhares me tangenciavam.
Mal-estar súbito: eu estava invisível. Antônio comigo: Antônio estava invisível.
(...)
Sentir-se invisível atordoa.
O que brota da percepção de não aparecer para os outros é a sensação de existirmos como coisa, um esvaziamento. Passamos a contar como se fôssemos um item paisagístico. Um poste, uma árvore, uma placa de sinalização de trânsito, um orelhão, uma pessoa em uniforme de gari na atmosfera social: todos parecem valer a mesma coisa.
A partir do enigma, construído em mim, foram se agrupando outros lados da coisa. E os garis, não estariam eles também expostos à invisibilidade? Não viveriam isso ainda mais radicalmente? Mais assiduamente? Outros trabalhadores, em funções outras, mas também muito simples e marcadas pela subalternidade, não passariam também por isso? O que sentiriam em uma situação desse tipo? Após muitos (des)encontros assim, esses desencontros geradores de um mau sentimento, a invisibilidade pública, que quadro existencial se configura entre os garis, em que quadro psicossocial e político eles são imersos?
Quando vesti o uniforme, isso não foi suficiente para que eu me tornasse invisível diante dos garis. Por quê? Por que não foi possível que eu próprio me passasse por gari, mais um uniforme no meio deles?
(...)
Dias depois, varrendo com os companheiros, três professores do Instituto de Psicologia passaram ao meu lado. O lugar era outra vez o Restaurante dos Professores. Ficamos frente a frente. Um deles, naquele ano, lecionava aulas para nossa turma: chamava-me pelo nome e cumprimentava-me [SIC] nos corredores do bloco de aulas. O outro, durante uma aula, meses antes, havia valorizado o modo como me ocorreu traduzir uma lição sua: ‘Posso usar o que você disse, Fernando, numa conferência que estou para realizar?’. O último costumava fazer caminhadas pelo bairro de Pinheiros. Dois anos depois de eu ter cursado sua disciplina, em um desses passeios, ele fez questão de me acenar. Estávamos em calçadas opostas.
Pois bem, naquele dia, no Restaurante dos Professores, ficamos frente a frente, eu e os três. Nenhum deles fez qualquer saudação. Não me viram. Um deles - aquele que me reconhecera do outro lado de uma larga avenida - precisou desviar-se para não nos esbarrarmos sem dar-se conta de que era eu.
Teria sido distração?
Teria sido ocorrência episódica?
Duas semanas depois, mesmo cenário, mesma ação: Restaurante dos Professores, os garis varrendo, eu varrendo entre eles e uniformizado. Encontro outras duas professoras do IPUSP. Em seleção para monitoria em sua disciplina, havia sido avaliado e aprovado por uma delas. Trabalháramos juntos, semanalmente, um semestre inteiro. Com a outra, o contato era menos acadêmico, menos formal: fora das aulas, trocávamos idéias quando estávamos em seu departamento.
Interrompi o trabalho de varrer e ensaiei o corpo para uma saudação. Passaram a pé ao meu lado, ombro a ombro. Não me viram. Em situação semelhante, poucos meses depois, Restaurante dos Professores, uma delas chegou a me encarar olho no olho. Estávamos a uma distância que não superava dois metros. Olhava com medo. Não me via. Não me reconheceu. Deu um boa-tarde tímido e acelerou o passo.
Em questão de dias, novo encontro com a docente. Na guarita de entrada do restaurante (o tal restaurante, agora já famoso), parou o carro ao me reconhecer:

- , mudou pra Botânica?!
- Não. Continuo psicólogo.
- E o que cê faz aí?!
Explico-lhe.
- Ah, que lindo! Quem é seu orientador? [...] Ah, vai ficar muito bom! Quero ler, viu?! Quando ficar pronto. Quero mesmo!


Não teria sido um problema de visão - um problema físico, problema orgânico - que teria impedido a professora de reconhecer seu ex-aluno dias antes. O que seria então?
(...)
Nenhum ser humano, andando na rua, passa por outro como quem passa por um poste: o corpo e o olhar se modificam, os movimentos ficam distintos, a atenção se transforma, é afetada, como que se alarga. A atenção que um homem dispensa a outro homem é de natureza diferente daquela dirigida a objetos. Entretanto, as pessoas que passam pelo gari não parecem ter sua atenção suficientemente modificada, modificada pelo poder específico, pela influência específica de que é capaz a presença de um outro humano que está ali: desviam-se dele como quem se desvia de um obstáculo, uma coisa qualquer que atrapalha o caminho. ‘Eles nem olham na cara da gente.’
‘A gente sempre ouve uns comentário. Às vezes uma palavra estraga o dia da gente. Eles humilham a gente, ?! Então é melhor evitar contato. Pra gente não ficar reprimido.’
(...)
Aqui evoco outra vez José Moura Gonçalves Filho, quando assevera que não se trata simplesmente de humilhação, mas humilhação social: um sofrimento, sim, sentido em corpo e alma pessoais, mas um sofrimento político.
(...)
A cegueira de gente que não vê gente é traumática, causa angústia. A cegueira de gente que não vê gente dispara humilhação. A humilhação pode ser determinada como cegueira pública, pode ser determinada segundo a experiência de não aparecer como gente estando no meio de gente.
O aparecer de um homem no meio de outros homens, o aparecer de gente enquanto tal, é um acontecimento intersubjetivo, é um fenômeno psicossocial. A subjetividade de cada homem solicitada pela subjetividade de um outro humano. A cegueira pública - um homem que desaparece para outrem - também configura, dessa forma, um evento psicossocial. Tanto o cego como o indivíduo que não pôde ser visto sentem essa realidade, não a ignoram?
O olhar fala a alguém. O olhar faz falar. O que dizer, então, desse olhar quando não acontece? Como interpretá-lo, quando parece interrompido? Que desencontro é esse? Aqueles que aparentemente não vêem, não vêem? Percebem que não vêem? Há deliberação? Ou trata-se de um mecanismo psicológico já automatizado?"
Ilustração: Praça do Relógio, Cidade Universitária.

Um comentário:

andreya disse...

Fernando,
Você teve uma brilhante idéia ao escrever esse livro.
Parabéns pela iniciativa.
Um grande abraço.
Andreya